[Análise] Tagnêmica: "Conhecimento é Poder"
Publicado em Poder · Domingo 28 Dez 2025 · 15:00
ANALISE TAGMEMICA DA FRASE: CONHECIMENTO É PODER
Análise Tagmêmica Completa da Frase: "Conhecimento é poder"
Uma análise científica multinível, abrangendo as três dimensões pikeanas (fonológica, gramatical e referencial), com notação formal, matrizes tagmêmicas e discussão teórica aprofundada.
1. Contextualização Teórico-Metodológica
1.1 Enquadramento Epistemológico
A frase "Conhecimento é poder" constitui um enunciado gnômico (sentença de valor universal/atemporal) de estrutura equativa. Na perspectiva tagmêmica de Pike (1967), toda unidade linguística é um "comportamento estruturado" que deve ser analisado simultaneamente como:
- Partícula (unidade discreta com limites identificáveis)
- Onda (unidade em fluxo, com gradações e transições)
- Campo (unidade em relação sistêmica com outras unidades)
1.2 Princípios Operacionais Aplicados
Princípio e Aplicação nesta análise
Hierarquia de níveis - Análise do fonema ao discurso
Slot-Class Correlation - Cada posição estrutural correlacionada à classe que a preenche
Quádrupla caracterização do tagmema - Slot + Classe + Papel + Coesão
Êmico vs. Ético - Distinção entre unidades funcionais e realizações concretas
Tridimensionalidade - Forma, função e significado integrados
2. Análise Fonológica (Nível Fônico)
2.1 Transcrição Fonética e Fonêmica
Camada e Representação:
Ortográfica - Conhecimento é poder
Fonêmica (êmica) - /koɲesiˈmẽtu ˈɛ poˈdeʁ/
Fonética (ética) - [kõɲesiˈmẽtʊ ˈɛ poˈdeɾ] ~ [poˈdex]
2.2 Matriz Fonológica Tagmêmica
2.2.1 Estrutura Silábica Hierárquica
PALAVRA 1: co.nhe.ci.men.to (5 sílabas)
├── σ1: /ko/ → Onset: /k/ | Núcleo: /o/
├── σ2: /ɲe/ → Onset: /ɲ/ | Núcleo: /e/
├── σ3: /si/ → Onset: /s/ | Núcleo: /i/
├── σ4: /ˈmẽ/ → Onset: /m/ | Núcleo: /ẽ/ [TÔNICA]
└── σ5: /tu/ → Onset: /t/ | Núcleo: /u/
PALAVRA 2: é (1 sílaba)
└── σ1: /ˈɛ/ → Núcleo: /ɛ/ [TÔNICA]
PALAVRA 3: po.der (2 sílabas)
├── σ1: /po/ → Onset: /p/ | Núcleo: /o/
└── σ2: /ˈdeʁ/ → Onset: /d/ | Núcleo: /e/ | Coda: /ʁ/ [TÔNICA]
2.2.2 Tagmemas Fonotáticos
Slot Silábico | Classe Preenchedora | Papel Funcional | Coesão
Onset (Ataque) - Consoantes oclusivas /k, t, p, d/, nasal /m, ɲ/, fricativa /s/ - Margem inicial, delimitação silábica - Liga-se ao núcleo seguinte
Núcleo - Vogais /o, e, i, ẽ, u, ɛ/ - Pico de sonoridade, portador de acento - Centro coesivo da sílaba
Coda - Consoante /ʁ/ (em "poder") - Margem final - Fecha a sílaba, liga-se ao onset seguinte em fala conectada
2.3 Padrão Prosódico Suprassegmental
2.3.1 Estrutura Acentual
× ← Acento frasal principal
× × ← Acentos de palavra × . × . × × × . × co.nhe.ci.MEN.to É po.DER [proparoxítona relativa] [monossílabo tônico] [oxítona] 2.3.2 Contorno Entoacional
Segmento | Padrão Tonal | Função Pragmática
"Conhecimento" | L+H* (ascendente no acento)* | Tópico, tema dado
"é" | *H* (platô alto) | Cópula, ligação
"poder" | H+L* L% (descendente final)* | Rema, foco informacional, finalização assertiva*
Notação ToBI adaptada ao PB:
Conhecimento é poder
L+H* H* H+L* L% [TÓPICO] [CÓPULA] [FOCO/REMA] 2.4 Fonoestilística e Iconicidade Sonora
Fenômeno | Ocorrência | Efeito Êmico
Aliteração | /k/ (conhecimento) ↔ /p/ (poder) — oclusivas surdas | Força, assertividade
Assonância | Vogais médias /e, ɛ, o/ predominantes | Estabilidade, equilíbrio
Ritmo | Padrão trocaico tendencial (forte-fraco) | Memorabilidade, caráter sentencioso
Economia fonética | 8 sílabas totais, estrutura CV predominante | Facilidade articulatória, portabilidade mnemônica
3. Análise Gramatical (Nível Morfossintático)
3.1 Nível Morfêmico
3.1.1 Decomposição Morfológica Completa
PALAVRA 1: "Conhecimento"
conhecimento
├── RAIZ: conhec- (do latim cognoscere → "tomar conhecimento de") ├── VOGAL TEMÁTICA: -e- (2ª conjugação, presente no verbo "conhecer") ├── SUFIXO NOMINALIZADOR: -ment- (forma substantivos de ação/resultado) └── DESINÊNCIA DE GÊNERO/NÚMERO: -o (masculino singular) Estrutura: [[[conhec]RAIZ + e]TEMA + ment]NOMINALIZADOR + o]FLEXÃO Processo: Derivação sufixal deverbal (V → N) Matriz Tagmêmica Morfêmica — "Conhecimento":
Slot Morfêmico | Classe | Papel | Coesão
Posição 1 (Base) | Raiz verbal | Núcleo semântico (ação cognitiva) | Determina campo semântico
Posição 2 (Temático) | Vogal temática | Indicador de conjugação | Liga raiz ao sufixo derivacional
Posição 3 (Derivacional) | Sufixo -ment | -Transpositor categorial (V→N), indica resultado/produto | Liga base verbal à categoria nominal
Posição 4 (Flexional) | Desinência -o | Marcador de gênero (masculino) | Integra palavra ao sistema nominal da língua
PALAVRA 2: "é"
é
├── RAIZ SUPLETIVA: s-/é- (do latim esse → "ser") ├── MORFEMA AMALGAMADO: 3ª pessoa singular, presente do indicativo └── PARADIGMA: Verbo ser (altamente irregular, supletivo) Estrutura: [é]RAIZ+TAM+NP (morfema portmanteau) Matriz Tagmêmica Morfêmica — "é":
Slot Morfêmico | Classe | Papel | Coesão
Posição única (fusional) | Raiz + flexão amalgamadas | Cópula identificacional + tempo/aspecto/modo/número/pessoa | Núcleo predicativo, conecta sujeito e predicativo
PALAVRA 3: "poder"
poder
├── RAIZ: pod- (do latim potere → "ter potência, ser capaz") ├── SUFIXO NOMINALIZADOR: -er (forma substantivos de ação/capacidade a partir de verbos) └── Homófono do infinitivo verbal (ambiguidade categorial) Estrutura: [[pod]RAIZ + er]NOMINALIZADOR/INFINITIVO Processo: Conversão ou derivação regressiva (V ↔ N) Matriz Tagmêmica Morfêmica — "poder":
Slot Morfêmico | Classe | Papel | Coesão
Posição 1 (Base) | Raiz verbal/nominal | Núcleo semântico (capacidade, potência, força) | Determina campo semântico
Posição 2 (Categorial) | Sufixo -er | Marcador de infinitivo OU nominalizador | Permite ambiguidade categorial (V/N) funcional para a polissemia
3.1.2 Análise Sêmica (Traços Semânticos Distintivos)
CONHECIMENTO:
[+abstrato] [+contável/massivo] [+humano como possuidor típico][+processo→resultado] [+cognitivo] [+acumulável] [+transmissível]
PODER: [+abstrato] [+contável/massivo] [+humano/institucional como possuidor][+capacidade] [+relacional] [+assimétrico] [+exercível] [+disputável] 3.2 Nível Sintagmático (Frase/Sintagma)
3.2.1 Estrutura Sintagmática em Constituintes Imediatos
S (Sentença)
│ ┌──────────────┼──────────────┐ │ │ │ SN SVC SN (Sujeito) (Cópula) (Predicativo) │ │ │ N V N │ │ │ "Conhecimento" "é" "poder" 3.2.2 Notação Tagmêmica Formal (Fórmula de Longacre)
Fórmula Estrutural da Cláusula:
Cl:equativa = +Suj:SN +Pred:Vcóp +PredSuj:SN
Onde: - Cl:equativa = Cláusula do tipo equativo/identificacional- +Suj:SN = Slot de Sujeito preenchido por Sintagma Nominal (obrigatório)- +Pred:Vcóp = Slot de Predicado preenchido por Verbo Copulativo (obrigatório)- +PredSuj:SN = Slot de Predicativo do Sujeito preenchido por SN (obrigatório) Expansão dos Sintagmas Nominais:
SN₁ (Sujeito) = +Núcleo:N[±Det]
→ +Núcleo:N["conhecimento"] (sem determinante = valor genérico) SN₂ (Predicativo) = +Núcleo:N[±Det] → +Núcleo:N["poder"] (sem determinante = valor genérico) 3.2.3 Matriz Tagmêmica Sintagmática Completa
Tagmema | Slot | Classe | Papel Gramatical | Papel Semântico | Coesão
T₁ | Posição Pré-verbal (inicial) | SN (núcleo nominal simples) | Sujeito gramatical | Identificado (aquilo que se define) | Concordância com V; tópico discursivo
T₂ | Posição Central (medial) | V copulativo (ser, 3ª sg. pres. ind.) | Predicado verbal (núcleo) | Relator identificacional | Liga T₁ a T₃; estabelece equação
T₃ | Posição Pós-verbal (final) | SN (núcleo nominal simples) | Predicativo do sujeito | Identificador (aquilo que define) | Rema informacional; foco
3.3 Nível Oracional (Sentença)
3.3.1 Tipologia Clausular
Parâmetro | Classificação | Justificativa
Estrutura argumental | Biargumental (2 argumentos: sujeito + predicativo) | Verbo copulativo seleciona sujeito e atributo
Tipo semântico de predicado | Estativo-relacional | Expressa relação de identidade, não ação
Modo oracional | Declarativo | Asserção de verdade
Polaridade | Positiva | Sem negação
Voz | Ativa (não aplicável em sentido estrito) | Cópulas não têm voz passiva
Transitividade | Intransitiva copulativa | Verbo de ligação + predicativo
Tempo/Aspecto | Presente gnômico (atemporal) | Verdade universal, não ancorada em tempo específico
3.3.2 Estrutura Informacional (Tema-Rema / Tópico-Comentário)
TEMA (Tópico) ──────────── REMA (Comentário/Foco)
│ │ "Conhecimento" "é poder" │ │ [Dado/Pressuposto] [Novo/Assertido] Análise:
- Tema/Tópico: "Conhecimento" — ponto de partida, aquilo sobre o que se fala
- Rema/Foco: "é poder" — informação nova, o que se predica do tópico
- Estrutura especificacional: O sujeito é a variável; o predicativo é o valor
3.3.3 Relações Gramaticais segundo a Hierarquia de Acessibilidade (Keenan & Comrie adaptado)
Sujeito > Objeto Direto > Objeto Indireto > Oblíquo > Genitivo > Objeto de Comparação
"Conhecimento" = SUJEITO (posição mais alta na hierarquia) "poder" = PREDICATIVO (não é argumento regido; é correferente ao sujeito) 3.4 Nível do Parágrafo e Discurso
3.4.1 Função Textual do Enunciado
Função e Descrição
Tese/Proposição Central | Sentença gnômica funciona como máxima, aforismo, tese argumentativa
Macro-ato de fala | Asserção categórica com força ilocucionária de declaração universal
Posição textual típica | Abertura de texto argumentativo, epígrafe, conclusão sintética
Gênero discursivo associado | Aforismo, provérbio, slogan, tese filosófica
3.4.2 Matriz Tagmêmica de Nível Discursivo
DISCURSO MONOLÓGICO EXPOSITIVO-ARGUMENTATIVO
│ ├── Unidade Retórica: TESE │ └── Realização: Sentença gnômica equativa │ └── "Conhecimento é poder" │ ├── Slot Funcional: PROPOSIÇÃO CENTRAL │ └── Papel: Estabelecer premissa fundante / verdade axiomática │ └── Coesão Discursiva: ├── Anáfora zero (sentença autossuficiente)
├── Potencial catafórico (abre desenvolvimento argumentativo)
└── Intertextualidade (remete a Francis Bacon, Foucault, tradição filosófica)
4. Análise Referencial (Nível Semântico-Pragmático)
4.1 Semântica Lexical
4.1.1 Campos Semânticos e Relações Lexicais
Campo Semântico de "Conhecimento":
COGNIÇÃO
│ ┌─────────────┼─────────────┐ │ │ │ AQUISIÇÃO ESTADO TRANSMISSÃO │ │ │ aprendizado conhecimento ensino estudo saber educação pesquisa entendimento instrução Campo Semântico de "Poder":
POTÊNCIA
│ ┌─────────────┼─────────────┐ │ │ │ CAPACIDADE AUTORIDADE INFLUÊNCIA │ │ │ habilidade domínio controle competência governo prestígio aptidão soberania hegemonia 4.1.2 Relações Paradigmáticas
Relação | "Conhecimento" | "Poder"
Sinônimos | saber, ciência, erudição, sapiência | força, autoridade, domínio, potência
Antônimos | ignorância, desconhecimento, nescidade | impotência, fraqueza, submissão
Hiperônimo | cognição, faculdade mental | capacidade, atributo
Hipônimos | epistemologia, gnose, techné, phronesis | poder político, poder econômico, biopoder
Merônimos | informação, dado, conceito, teoria | legitimidade, recursos, coerção
4.2 Semântica Composicional
4.2.1 Estrutura Predicativa (Lógica de Primeira Ordem)
Representação Lógica:
∀x [CONHECIMENTO(x) → PODER(x)] "Para todo x, se x é conhecimento, então x é (constitui/equivale a) poder"
Ou, em leitura identificacional: CONHECIMENTO = PODER (identidade extensional no contexto gnômico)
Alternativamente (leitura intensional): λx.CONHECIMENTO(x) ⊆ λx.PODER(x) "O conjunto das instâncias de conhecimento é subconjunto do conjunto das formas de poder" 4.2.2 Papéis Temáticos (Theta-Roles)
Argumento | Papel Temático | Justificativa
"Conhecimento" | Tema/Paciente Estativo | Entidade sobre a qual se predica uma propriedade
"poder" | Atributo/Propriedade | Característica atribuída ao sujeito
Nota: Em construções copulativas identificacionais, os papéis temáticos são controversos. Alguns autores preferem:
- Identificado (sujeito) vs. Identificador (predicativo)
- Carrier (portador) vs. Attribute (atributo) na terminologia de Halliday
4.3 Semântica Relacional (Tipo de Predicação)
4.3.1 Taxonomia de Construções Copulativas (Higgins 1979, adaptada)
Tipo | Estrutura | Exemplo | Aplicação à frase
Predicacional | X é [propriedade] | "O céu é azul" | ✗
Especificacional | [variável] é [valor] | "O vencedor é João" | ✓ (parcial)
Identificacional | X é (idêntico a) Y" | Cícero é Túlio" | ✓✓
Equativa | [termo₁] = [termo₂] | "Conhecimento é poder" | ✓✓✓
Classificação: A frase "Conhecimento é poder" é uma construção equativa identificacional — estabelece uma relação de identidade/equivalência entre dois conceitos abstratos.
4.3.2 Estrutura de Frames Semânticos (FrameNet adaptado)
FRAME: Equivalência_Conceitual
│ ├── Elemento Central 1 (EC1): CONCEITO_FONTE │ └── "Conhecimento" — o conceito a ser definido/caracterizado │ ├── Elemento Central 2 (EC2): CONCEITO_ALVO │ └── "Poder" — o conceito que serve de definiens │ ├── Relação: IDENTIDADE/EQUIVALÊNCIA │ └── Expressa pelo verbo "ser" em função equativa │ └── Domínio: Epistemologia, Filosofia Política, Axiologia 4.4 Pragmática e Análise do Ato de Fala
4.4.1 Teoria dos Atos de Fala (Austin/Searle)
Nível e Descrição:
Ato Locucionário - Proferir a sequência fonética/gráfica "Conhecimento é poder" com sentido referencial
Ato Ilocucionário - Asserção categórica — afirmar como verdade uma proposição; força declarativa
Ato Perlocucionário - Convencer, persuadir, inspirar, advertir, legitimar a busca por conhecimento
4.4.2 Condições de Felicidade (Searle)
Condição e Status:
Proposicional | ✓ Expressa proposição identificável
Preparatória | ✓ Falante apresenta-se como tendo evidência/autoridade
Sinceridade | ✓ Falante acredita na verdade da proposição
Essencial | ✓ Conta como comprometimento com a verdade do conteúdo
4.4.3 Implicaturas Conversacionais (Grice)
Máxima | Cumprimento | Implicatura Gerada:
Quantidade | Violação aparente (sentença mínima) | A brevidade sinaliza caráter sentencioso, verdade autoevidente
Qualidade | Cumprida (apresentada como verdade) | Falante está comprometido com a verdade
Relação | Cumprida (relevante se em contexto apropriado) | Há conexão significativa entre conhecimento e poder
Modo | Cumprida (clara, ordenada, breve) | A forma aforística indica sabedoria condensada
4.4.4 Pressuposições e Acarretamentos
Pressuposições:
- Existem entidades/conceitos chamados "conhecimento" e "poder"
- Há uma relação significativa entre ambos que pode ser expressa por identidade
- O contexto de enunciação é apropriado para declarações gnômicas
Acarretamentos (Entailments):
- Possuir conhecimento implica possuir (alguma forma de) poder
- Buscar conhecimento é buscar poder
- Negar a alguém conhecimento é negar-lhe poder
4.5 Semântica Cognitiva e Metáfora Conceptual
4.5.1 Metáforas Conceptuais Subjacentes (Lakoff & Johnson)
METÁFORA 1: CONHECIMENTO É RECURSO
- Conhecimento pode ser adquirido, acumulado, investido, perdido - Base experiencial: Conhecimento como commodity
METÁFORA 2: PODER É FORÇA FÍSICA- Poder permite mover, agir, superar resistência - Base experiencial: Correlação entre força física e eficácia
METÁFORA 3: ABSTRATO É CONCRETO (genérica) - Conceitos abstratos são tratados como entidades manipuláveis - Base experiencial: Reificação cognitiva
4.5.2 Mapeamento Metafórico
DOMÍNIO FONTE: POSSE/RECURSO
│ ├── Recurso físico ────────→ Conhecimento ├── Força/Capacidade ──────→ Poder ├── Acumulação ────────────→ Aprendizado ├── Investimento ──────────→ Educação └── Retorno ───────────────→ Influência/Controle
DOMÍNIO ALVO: RELAÇÕES SOCIAIS/POLÍTICAS 5. Análise Integrativa Tridimensional
5.1 Matriz Tagmêmica Unificada (Pike)
Dimensão | Unidade Êmica | Manifestação Ética | Função no Sistema
Fonológica | 3 palavras fonológicas, 8 sílabas, padrão entoacional H* H+L* L% | [kõɲesiˈmẽtʊ ˈɛ poˈdex] | Veículo sonoro, iconicidade (brevidade = força)
Gramatical | Cláusula equativa S-V-PS, 3 tagmemas clausulares | SN + Vcóp + SN | Estrutura predicativa identificacional
Referencial | Proposição de identidade entre conceitos abstratos | ∀x[CONHECIMENTO(x)→PODER(x)] | Asserção gnômica, verdade universal
5.2 Perspectivas Partícula-Onda-Campo
Perspectiva e Descrição da Frase
Partícula - Unidade discreta com limites claros (3 palavras, 1 sentença, 1 proposição); pode ser citada, repetida, traduzida como bloco
Onda - Gradações internas (acento frasal, contorno entoacional, progressão tema-rema); transição suave entre segmentos; potencial de variação estilística
Campo - Relações paradigmáticas (cada item poderia ser substituído: "Informação é capital", "Saber é domínio"); relações sintagmáticas (colocações, concordância); posição no sistema linguístico e discursivo
5.3 Níveis Hierárquicos Integrados (Visão Vertical)
NÍVEL 6: DISCURSO
└── Função: Tese aforística / Epígrafe / Máxima filosófica └── Coesão: Potencial catafórico, autossuficiência
└── Função: Sentença-tópico ou sentença-síntese └── Coesão: Pode abrir ou fechar bloco argumentativo
NÍVEL 4: SENTENÇA/ORAÇÃO └── Estrutura: Cláusula equativa independente └── Fórmula: Cl = +Suj:SN +Pred:Vcóp +PredSuj:SN
NÍVEL 3: SINTAGMA/FRASE └── SN₁ ("Conhecimento") + SV_cóp ("é") + SN₂ ("poder") └── Relação: Sujeito ↔ Cópula ↔ Predicativo
NÍVEL 2: PALAVRA └── 3 itens lexicais: [N] + [V] + [N] └── Classes: Substantivo abstrato + Verbo de ligação + Substantivo abstrato
NÍVEL 1: MORFEMA └── conhec-e-ment-o | é | pod-er └── Processos: derivação deverbal, supletivismo, conversão
NÍVEL 0: FONEMA └── /k.o.ɲ.e.s.i.m.ẽ.t.u.ɛ.p.o.d.e.ʁ/ └── 17 fonemas, padrão CV predominante
6. Análise Histórico-Filológica e Intertextual
6.1 Origem e Atribuição
Aspecto e Informação
Atribuição tradicional - Francis Bacon (1561–1626), filósofo inglês
Obra de origem - Meditationes Sacrae (1597), aforismo "Scientia potentia est"
Latim original - Scientia potentia est (lit. "Ciência é potência")
Variante expandida - Nam et ipsa scientia potestas est ("Pois o próprio conhecimento é poder") — Meditationes Sacrae, XI
6.2 Transformações Históricas do Enunciado
LATIM (Bacon, 1597):
"Scientia potentia est" INGLÊS (tradução moderna):│▼
"Knowledge is power"
PORTUGUÊS:│▼
"Conhecimento é poder" / "Saber é poder"
6.3 Campo Intertextual
Pensador e Relação com o Enunciado:
Platão - Rei-filósofo: quem conhece deve governar
Bacon - Formulação canônica; conhecimento como instrumento de domínio da natureza
Hobbes - Scientia propter potentiam — ciência para o poder
Foucault - Poder-saber: conhecimento e poder são mutuamente constitutivos
Gramsci - Hegemonia intelectual como forma de poder
7. Síntese e Considerações Finais
7.1 Características Definidoras da Estrutura
Característica e Manifestação:
Economia máxima | 3 palavras, 8 sílabas — estrutura mínima para proposição completa
Simetria estrutura | lN + V + N — equilíbrio sintático perfeito
Abstração máxima | Ambos os termos são substantivos abstratos genéricos
Generalidade semântica | Ausência de determinantes → leitura universal
Atemporalidade | Presente gnômico → verdade perene
Memorabilidade | Ritmo, brevidade, aliteração → qualidades mnemônicas
7.2 Potência Retórica e Ideológica
A estrutura tagmêmica revela por que este enunciado é tão eficaz e duradouro:
- Fonologicamente: Padrão rítmico equilibrado, fonemas fortes (oclusivas), brevidade icônica
- Gramaticalmente: Estrutura equativa simétrica, sem subordinação, máxima transparência
- Semanticamente: Identificação de dois valores culturais supremos (episteme + kratos)
- Pragmaticamente: Força ilocucionária de verdade axiomática, não demanda justificação
- Discursivamente: Funciona como epígrafe, tese, slogan — alta portabilidade textual
7.3 Quadro-Resumo Final
╔═════════════════════════════════════════════╗
║ANÁLISE TAGMÊMICA: "CONHECIMENTO É PODER"║
╠═════════════════════════════════════════════╣ ║ NÍVEL │ UNIDADE │ FUNÇÃO║
╠═════════════════════════════════════════════╣ ║ Fonológico │ 8 sílabas │ Veículo sonoro, iconicidade ║ ║ Morfêmico │ 6 morfemas │ Construção lexical ║ ║ Lexical │ 3 palavras │ Referência conceptual ║║ Sintagmático │ 3 sintagmas │ Organização frasal ║ ║ Oracional │ 1 cláusula │ Predicação equativa ║ ║ Discursivo │ 1 aforismo │ Tese gnômica universal ║ ╠═════════════════════════════════════════════╣ ║ TIPO CLAUSULAR: Equativa identificacional ║ ║ ATO DE FALA: Asserção categórica (declaração universal) ║ ║ FUNÇÃO TEXTUAL: Máxima / Tese / Epígrafe ║ ║ ORIGEM: Francis Bacon, "Scientia potentia est" (1597) ║ ╚═════════════════════════════════════════════╝ 8. Referências Teóricas Fundamentais
- Pike, Kenneth L. Language in Relation to a Unified Theory of the Structure of Human Behavior. 2ª ed. Mouton, 1967.
- Longacre, Robert E. An Anatomy of Speech Notions. Peter de Ridder Press, 1976.
- Longacre, Robert E. The Grammar of Discourse. 2ª ed. Plenum, 1996.
- Waterhouse, Viola. "The History and Development of Tagmemics." Trends in Linguistics, 1974.
- Searle, John. Speech Acts: An Essay in the Philosophy of Language. Cambridge University Press, 1969.
- Halliday, M.A.K. An Introduction to Functional Grammar. 3ª ed. Arnold, 2004.
- Lakoff, George; Johnson, Mark. Metaphors We Live By. University of Chicago Press, 1980.
- Foucault, Michel. Microfísica do Poder. Graal, 1979.