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Ustad Bahauddin Dagar

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Ustad Bahauddin Dagar

Allan Galvão - Site pessoal
Publicado por Allan Galvão em Música · Segunda 16 Jun 2025 · Tempo de leitura 29:15
Tags: NadaYogaBahauddinDagarMúsicaDhrupad

Biografia
Mohi Baha’ud-din Dagar, conhecido artisticamente como Ustad Bahauddin Dagar, nasceu em 17 de julho de 1970 em Chembur, Mumbai. Ele descende de uma linhagem musical ilustre: é considerado o representante da 20ª geração da família Dagar, célebre por preservar a tradição do dhrupad desde o século XVI. Bahauddin é filho do lendário mestre da Rudra Veena Ustad Zia Mohiuddin Dagar e de Pramila Dagar, sua primeira instrutora de música, e sobrinho do renomado vocalista Ustad Zia Fariduddin Dagar. No seio dessa família musical, ele cresceu cercado por música, arte e poesia, convivendo desde cedo com discípulos e mestres em sua própria casa, o que naturalmente o inclinou à vocação artística.

Iniciou sua formação aos 7 anos de idade, aprendendo sitar com a mãe, e depois passou ao surbahar (uma espécie de sitar baixo) antes de finalmente se dedicar à Rudra Veena, sob tutela direta de seu pai, Ustad Zia Mohiuddin Dagar. Com o falecimento prematuro do pai em 1990, Bahauddin tinha apenas 20 anos e assumiu cedo a responsabilidade de levar adiante a tradição familiar, realizando sua estreia nos palcos profissionais naquele mesmo ano. A partir de então, continuou seu aperfeiçoamento musical sob orientação do tio, Ustad Zia Fariduddin Dagar, especialmente nos aspectos vocais do dhrupad. Ao longo de sua formação, Bahauddin também foi exposto a diversos gêneros musicais ocidentais (rock, pop, jazz), embora tenha decidido focar inteiramente na música clássica indiana por volta dos 16 anos de idade. Essa ampla vivência musical moldou seu estilo, que combina a profunda tradição do dhrupad com uma sensibilidade pessoal única.

Influências e Tradições Musicais (Dagarvani e Dhrupad)

Bahauddin Dagar é um dos principais expoentes contemporâneos do dhrupad, a forma mais antiga de música clássica do norte da Índia ainda em prática. Originado dos cânticos védicos do Sama Veda, o dhrupad desenvolveu-se inicialmente como um gênero vocal litúrgico e, ao longo de quase um milênio, estruturou-se em várias escolas estilísticas (vani), como as linhagens Dagar, Darbhanga, Vishnupur, Bettiah, entre outras. A família Dagar segue a tradição conhecida como Dagarvani, caracterizada por um estilo sereno, meditativo e profundamente introspectivo. Essa abordagem privilegia a execução lenta e gradual do raga, rememorando uma era em que os recitais eram longos, sem acompanhamento rítmico e com ênfase na pureza tonal.

Como herdeiro da escola Dagarvani, Bahauddin recebeu forte influência de seu pai e de seu tio, que foram seus gurus e inspirações centrais. Ele frequentemente menciona o método de ensino de seu pai, Ustad Zia Mohiuddin, como fundamental: o pai lhe transmitia apenas algumas frases musicais-chave de um raga, “frases que capturavam sua alma”, e pedia que o discípulo as desenvolvesse por conta própria até que “o espírito do raga se revelasse” por inteiro. Esse ensinamento misterioso e sutil moldou a estética de Bahauddin, cuja música equilibra rigor tradicional e expressão pessoal. Embora seu estilo reflita fielmente a formação recebida, incorporando a essência da Saadharani Geeti (Dagarvani), ele também adiciona uma dimensão pessoal de profundidade e exploração do raga.

Outra marca de sua música é a influência do treinamento vocal que teve com o tio. Bahauddin consegue emular as sílabas rítmico-melódicas do canto dhrupad (como te, ta, re, na) em sua execução instrumental, algo pouco comum entre instrumentistas. Essa técnica confere precisão e clareza rítmica à articulação das frases durante o alap (introdução melódica livre), o jor (seção com pulsação) e o jhala (seção acelerada de conclusão) na Rudra Veena. Assim, ele preserva na veena a linguagem do canto Dagarvani, mantendo a tradição viva e autêntica no instrumento. Bahauddin também cita outros grandes músicos da música indiana como inspirações – por exemplo, admirando a expressividade da lendária cantora Kishori Amonkar – e acredita que cada artista contribui de forma singular para a evolução contínua dessa forma de arte. Em suma, sua atuação equilibra respeito absoluto à tradição ancestral com a busca de uma voz individual dentro dos parâmetros do dhrupad, demonstrando que é possível inovar sem romper os vínculos com as raízes estilísticas.

Instrumento Principal: Rudra Veena (Detalhes e Histórico)

Ustad Bahauddin Dagar tocando a Rudra Veena, seu instrumento principal, durante uma apresentação. A Rudra Veena – também conhecida simplesmente como veena, been ou bin – é um instrumento de cordas dedilhadas de grande porte, considerado “o rei dos instrumentos indianos” pela tradição clássica hindustaní. Trata-se de uma antiga vina de tubo, composta por um longo braço cilíndrico oco (geralmente de madeira ou bambu) com trastes móveis e duas grandes cabaças resonadoras fixadas em suas extremidades. A Rudra Veena figura entre os instrumentos mais antigos mencionados na história musical do norte da Índia, com 24 trastes afinados individualmente, capazes de produzir um universo sonoro rico em microtons e matizes delicadas. Por muitos séculos, esse instrumento esteve associado principalmente ao acompanhamento de cantos dhrupad e às práticas de estudo privado dos músicos de corte, raramente sendo ouvido como instrumento solista em apresentações públicas.

A revitalização da Rudra Veena como instrumento de concerto solo no mundo moderno deve-se em grande medida ao esforço do pai de Bahauddin, Zia Mohiuddin Dagar, no século XX. Ustad Zia Mohiuddin não apenas dominou a arte ancestral do instrumento, mas também modificou sua construção para aprimorar sua sonoridade: ele ampliou as dimensões das cabaças (tumbas) e do braço (dandhi) da veena a fim de obter maior ressonância, aproximando seu timbre e sustentação das técnicas vocais do dhrupad. Essas alterações estruturais, aliadas ao estilo contemplativo da família Dagar, conferiram à Rudra Veena um caráter ainda mais adequado à exploração lenta e profunda dos ragas. O próprio Bahauddin utiliza uma Rudra Veena nesse estilo aprimorado, tirando proveito da sonoridade encorpada e austera do instrumento para alcançar uma expressão musical “pura e universal, próxima da essência da música clássica indiana”.

Do ponto de vista técnico, a Rudra Veena de Bahauddin é afinada e tocada de modo a reproduzir com exatidão as sutilezas da música dhrupad. Ele destaca que a veena é considerada um “yantra” (instrumento/ ferramenta) nos textos antigos – ou seja, um aparato capaz de medir precisamente as notas e microtons, servindo até mesmo como referência para vocalistas compreenderem a colocação correta das notas na escala. Diferentemente da veena do sul (Saraswati Veena), que é esculpida em uma única peça de madeira e se adapta à música carnática, a Rudra Veena do norte possui montagem separável (braço e cabaças) e uma afinação que atende às exigências do estilo dhrupad. Bahauddin descreve a Rudra Veena como um instrumento de sonoridade simples e pura, porém extremamente exigente com o músico: uma vez que a veena está afinada de acordo com um raga específico, “os microtons começam a ditar ordens” – o instrumento demanda total entrega e calma por parte do artista. “Cada instrumento tem seu próprio ritmo de vida. Um beenkar (tocador de veena) nunca deve ter pressa”, ensina Bahauddin, enfatizando a disciplina necessária para domar as sutilezas desse instrumento que muitos consideram quase sagrado.

Nos últimos anos, além de tocar a Rudra Veena tradicional, Bahauddin Dagar tem se dedicado a experimentos para preservar e reintroduzir instrumentos antigos relacionados. Ele idealizou a chamada Ras Veena, uma adaptação da veena do sul (Saraswati Veena) modificada para se adequar ao estilo dhrupad, buscando assim ampliar as possibilidades tímbricas dentro da tradição. Atualmente, Bahauddin também estuda o sursingar, um raro instrumento de cordas da família do sarod (de registro grave), com o objetivo de trazê-lo de volta às salas de concerto após longo esquecimento. Estas iniciativas revelam seu compromisso não apenas em dominar a Rudra Veena, mas também em pesquisar e expandir o horizonte organológico da música clássica indiana, garantindo que conhecimentos ancestrais sobre instrumentos não se percam com o tempo.

Carreira Artística: Apresentações, Festivais e Turnês

Desde sua estreia em 1990, Bahauddin Dagar construiu uma carreira respeitada e prolífica como solista de Rudra Veena em palcos nacionais e internacionais. Com apenas vinte anos, ele subiu ao palco para substituir seu pai falecido, impressionando o meio musical pela maturidade e profundidade de sua performance mesmo em tão tenra idade. Nas décadas seguintes, consolidou-se como o principal mestre vivo da Rudra Veena, sendo frequentemente aclamado pela crítica por seu estilo contemplativo e pela profundidade espiritual de sua música. Seu alap não raro é apresentado sem qualquer acompanhamento de percussão, reforçando a atmosfera introspectiva e atemporal de suas apresentações, numa retomada da prática antiga em que os músicos tocavam por longas durações em completa liberdade rítmica.

Bahauddin já se apresentou nos mais prestigiados festivais de música clássica da Índia, bem como em eventos internacionais de destaque. Entre os palcos que já recebeu suas performances, podemos citar:

  • Tansen Samaroh (Gwalior, Índia) – festival anual em homenagem ao lendário músico Mian Tansen.
  • Festival Ustad Shankarlal (Nova Delhi, Índia) – importante festival de música clássica promovido na capital.
  • Conferência de Dover Lane (Calcutá, Índia) – um dos mais tradicionais festivais de música hindustani.
  • Dhrupad Samaroh (em cidades como Mumbai e Delhi, Índia) – encontros dedicados exclusivamente à música dhrupad.
  • Festival da Sangeet Natak Akademi (Nova Delhi) – festival da academia nacional de artes da Índia.
  • Saptak Festival (Ahmedabad, Índia) – renomado festival de música realizado anualmente em janeiro.
  • Kalidas Samaroh (Ujjain, Índia) – festival cultural que celebra a herança artística indiana.
  • Eventos do ITC Sangeet Research Academy (SRA) (Calcutá, Índia) – concertos promovidos pela academia de música de Calcutá.
  • Festival Zeitfluss (Áustria) – festival europeu de música contemporânea e tradicional.
  • Festival de Fès de Música Sagrada (Fez, Marrocos) – festival internacional de música espiritual do mundo.
  • Mozart Bicentennial Celebration (Áustria) – evento comemorativo do bicentenário de Mozart, onde Bahauddin representou a música indiana.
  • Darbar Festival (Reino Unido) – importante festival de música clássica indiana; Bahauddin se apresentou na edição de Londres (2018), realizando um concerto solo marcante na Purcell Room que cativou o público pela profundidade de sua arte. Ele também foi atração na edição de Birmingham do Darbar Festival anos antes.
  • SPIC-MACAY (Índia, EUA, Canadá) – ele tem participado ativamente de concertos e workshops educativos da Sociedade para Promoção da Música Clássica Indiana entre os Jovens, tanto na Índia quanto no exterior, difundindo a tradição do dhrupad em universidades e centros culturais pelo mundo.

Além desses eventos, Bahauddin Dagar frequentemente realiza turnês internacionais solo. Em 2017, apresentou-se no Ravenna Festival na Itália, colaborando com a vocalista Pelva Naik em um concerto dedicado aos 70 anos da independência da Índia. No Ocidente, suas aparições têm despertado o interesse não apenas do público, mas também de músicos de outras vertentes – já na década de 1970, jazzistas como Don Cherry e Sonny Rollins procuraram a família Dagar em busca de aprendizado em dhrupad, exemplificando a atração exercida por essa arte ancestral sobre artistas estrangeiros. Bahauddin também protagonizou episódios emblemáticos na mídia indiana, como sua participação em 2018 no programa televisivo “Harmony with A.R. Rahman”, ao lado do famoso compositor A. R. Rahman, onde pôde apresentar a riqueza da Rudra Veena a uma audiência mais ampla.

Embora atue principalmente como solista, Bahauddin por vezes colabora com outros artistas. Um exemplo foi o projeto “Inter Connect” (2020), em Mumbai, no qual ele dividiu o palco com o bailarino contemporâneo Astad Deboo, explorando o diálogo entre a Rudra Veena e a dança moderna. Também realiza duetos de dhrupad ao lado de cantores tradicionais, como em gravações e concertos com Ustad Faiyaz Wasifuddin Dagar (seu primo, vocalista de dhrupad). Em todas essas frentes, sua carreira se destaca pela manutenção de um padrão artístico elevadíssimo – críticos salientam seu som “orante e expansivo” e sua responsividade quase telepática ao espírito do raga, resultado de décadas de dedicação disciplinada.

Discografia (Gravações e Lançamentos)

A discografia de Ustad Bahauddin Dagar reflete seu empenho em registrar a tradição do dhrupad na Rudra Veena para audiências globais.

Entre seus principais lançamentos estão:

  • “Dhrupad – Ragini Todi” (Living Media/Music Today, 1997) – Álbum apresentando o raga Ragini Todi, com extensos trechos de alap, jor e jhala. Lançado em CD e cassete na Índia, este registro traz Bahauddin executando um dhrupad instrumental completo em um dos ragas matinais da tradição.
  • “The Tradition of Dhrupad on Rudravina – Volume 1” (Makar Records, 1994) – Primeiro de dois volumes gravados na França, contendo os ragas Bhairav e Komal Re Durga. Nesse álbum, totalmente sem acompanhamento, Bahauddin dá sua interpretação inicial desses ragas; é notável por ser uma das primeiras gravações internacionais de Rudra Veena no estilo Dagar.
  • “The Tradition of Dhrupad on Rudravina – Volume 2” (Makar Records, 1998) – Continuação do projeto anterior, com os ragas Kanakangi e Ragvardhani (escolhas incomuns, originárias do sistema carnático adaptadas pelo pai de Bahauddin). A crítica destacou que este segundo volume mostrou um Bahauddin mais maduro, lembrando em momentos a maestria de seu pai.
  • “Raga Puriya Kalyan” (India Archive Music, 2005) – Registro ao vivo de um recital completo do raga Puriya Kalyan, gravado em estúdio nos EUA com acompanhamento de pakhawaj (Manik Munde na percussão). Lançado pelo selo especializado India Archive (Nova York) em CD, este álbum destaca o lirismo de Bahauddin em um raga crepuscular por excelência.
  • “Live from Darbar Festival 2006” (Darbar/Sense World Music, 2007) – Álbum ao vivo contendo trechos da apresentação de Bahauddin no Darbar Festival de 2006 (Reino Unido), incluindo alap, jor/jhala e uma composição em ritmo chautal no raga Bhairavi. Esse registro captura a atmosfera de um concerto autêntico de dhrupad para o público ocidental e foi posteriormente disponibilizado em plataformas digitais.
  • “Vedanta”Wasifuddin Dagar & Bahauddin Dagar (Sense World Music, 2007) – Álbum duplo (2 CDs) reunindo um jugalbandi de voz e Rudra Veena. Nele, Ustad Faiyaz Wasifuddin Dagar (voz dhrupad) e Bahauddin Dagar exploram juntos o raga Malkauns, apresentando alap, jor, jhala e composições em estilo dhrupad. Lançado no Reino Unido, este trabalho evidenciou o diálogo entre a tradição vocal Dagarvani e a veena.
  • “Ahir Bhairav” (Black Sweat Records / Country & Eastern, 2022) – Lançamento recente em vinil duplo e formato digital que traz Bahauddin interpretando o raga matinal Ahir Bhairav. Gravado na Itália, apresenta o desenvolvimento completo do raga (alap, jor, jhala) seguido de uma peça em ritmo chautal, acompanhado de tambura e pakhawaj. Lançado em maio de 2022, este álbum mostra Bahauddin permanecendo fiel ao estilo meditativo da escola Dagar, explorando todos os registros do instrumento com movimentos microtonais ascendentes e descendentes que “reactivam o corpo e a mente na primeira luz do dia”.

Obs.: Além dos títulos acima, a música de Bahauddin Dagar também aparece em diversas coletâneas e registros institucionais. Por exemplo, suas performances foram gravadas por selos como Ragini Sutra (Índia) – um selo fundado pelo próprio Bahauddin para divulgar o dhrupad –, pelo India Music Archive (EUA) e por projetos audiovisuais disponibilizados em plataformas de streaming. Ele também tem vídeos e concertos completos disponíveis em canais como o YouTube (incluindo conteúdos do Darbar Festival e do SRA de Kolkata), o que contribui para ampliar o acesso do público ao som singular da Rudra Veena.

Prêmios e Reconhecimentos

Ustad Bahauddin Dagar recebeu ao longo de sua trajetória diversos prêmios, honrarias e títulos em reconhecimento à sua contribuição para a música clássica indiana.

Dentre os principais, destacam-se:

  • Bolsa Lakhanpal Foundation (1990) – fellowship de dois anos concedida no início de sua carreira, reconhecendo seu talento promissor.
  • Bolsa do Ministério de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Índia (1993) – fellowship federal de dois anos para jovens artistas, que apoiou Bahauddin em sua formação avançada.
  • Prêmio Sanskriti (2006) – honraria concedida pela Sanskriti Foundation (Nova Delhi) a artistas de destaque em diversas áreas culturais.
  • Prêmio Yuvak Sadhak (2007) – conferido pela Fundação Ustad Allauddin Khan (ou pela Sangeetendu Lal Mani Mishra Foundation, Bhopal) a jovens músicos clássicos de mérito.
  • Prêmio Ustad Raza Ali Khan (Raza Award, 2007) – outorgado pela Raza Foundation (Nova Delhi), instituição fundada pelo artista Syed Haider Raza para premiar excelência nas artes.
  • Sangeet Natak Akademi Puraskar (2012-2013) – prêmio da Academia Nacional de Música, Dança e Teatro da Índia, considerado a maior láurea para artistas performáticos no país. Bahauddin recebeu esta honraria no campo da música hindustaní instrumental, coroando seu status de principal praticante da Rudra Veena de sua geração.
  • Rashtriya Kumar Gandharva Samman (2014) – prêmio nacional instituído em memória do mestre Kumar Gandharva, entregue pelo governo do estado de Madhya Pradesh a jovens artistas clássicos de destaque.
  • Baiju Bawra Samman (2015) – honraria que leva o nome do lendário cantor dhrupad Baiju, concedida em reconhecimento à contribuição de Bahauddin para a preservação do estilo dhrupad instrumental.
  • Artista “A Grade” da All India Radio – Bahauddin é categorizado com a nota máxima (“A”) pela rádio nacional indiana em Mumbai, o que atesta seu alto nível profissional e o qualifica para transmissões regulares e programas nacionais da AIR.

Além dos prêmios formais, Bahauddin Dagar goza de enorme prestígio na comunidade musical. Ele é frequentemente convidado para integrar comitês, painéis de festivais e projetos de documentação musical. Seu nome figura em publicações especializadas e listas de mestres da música indiana, e recebeu aplausos de críticos tanto na Índia quanto no exterior por seu papel na revitalização da Rudra Veena e do dhrupad. Em 2018, por exemplo, a revista India Today o destacou como um dos “motoristas da mudança” na cultura, dada sua dedicação em manter viva uma arte de raiz em pleno século XXI. Todas essas reconhecimentos refletem não apenas sua habilidade excepcional como músico, mas também sua importância como guardião de uma herança cultural.

Entrevistas, Declarações e Visões sobre a Música Clássica

Ustad Bahauddin Dagar tem compartilhado, em diversas entrevistas, reflexões profundas sobre sua arte, pedagogia musical e os rumos da música clássica indiana na atualidade. Um tema recorrente em suas declarações é a necessidade de paciência, entrega e humildade diante da música. “Cada instrumento tem seu próprio ritmo de vida. Um beenkar (veenaista) nunca deve estar com pressa”, disse ele certa vez, enfatizando que a música dhrupad requer desacelerar e respeitar o tempo interno de cada nota. Bahauddin relata que, ao afinar a veena conforme os contornos de um raga, sente como se “os microtons começassem a dar ordens” ao músico – uma experiência quase mística que, segundo ele, exige do artista uma devoção total: “Eu não sou uma pessoa religiosa, nem um ateu, mas vi isso acontecer. A veena exige entrega completa”. Essas palavras revelam sua visão da música como um caminho espiritual em que o artista serve de canal para algo maior do que si mesmo.

Apesar dessa aura espiritual, Bahauddin esclarece que não considera a espiritualidade uma característica intrínseca da forma de arte em si, mas sim do empenho individual de cada artista. “A espiritualidade nunca está diretamente relacionada à forma de arte. É uma prática pessoal e uma consciência de si; qualquer forma de arte ou trabalho pode ser veículo disso”, afirmou ele em um diálogo, ponderando que a Rudra Veena em si é um instrumento simples – “é a simplicidade que nos dá uma paleta para redescobrir o novo e o complexo” – e cabe ao músico dar a ela uma dimensão transcendental por meio da prática disciplinada e do autoconhecimento.

Bahauddin Dagar também se posiciona sobre os desafios contemporâneos na música clássica. Em entrevistas, expressou preocupação com a diminuição da duração dos concertos nos tempos atuais. Ele lembra que, antigamente, um recital de música clássica podia durar várias horas, permitindo que “os cantores e a plateia tivessem tempo de se aquecer” e mergulhar verdadeiramente no raga. Hoje, no entanto, os eventos tornaram-se mais curtos e rigidamente cronometrados, o que para ele transforma os concertos em meras performances, quando na verdade “a ideia da música clássica indiana é continuar redescobrindo novas ideias” ao longo de uma apresentação prolongada. Bahauddin confessa sentir falta desses concertos longos – “jornadas de quatro a cinco horas” – nos quais músicos e ouvintes compartilhavam uma imersão profunda e coletiva no som.

Quanto ao impacto da tecnologia e das mudanças de consumo cultural, Bahauddin oferece uma visão equilibrada. Ele reconhece que a internet e as redes sociais mudaram o perfil do público de música clássica: plataformas como o YouTube ampliaram significativamente o alcance dessa música, trazendo uma nova geração de ouvintes e divulgando gravações raras que antes não estavam acessíveis. Por outro lado, essa exposição traz um nível maior de escrutínio: “Hoje, toda gravação está disponível online, então se você não tocar bem o suficiente, será criticado”, ele observa. Esse cenário, segundo Bahauddin, incentiva os músicos a manterem um padrão altíssimo, mas também pode encurtar carreiras daqueles que não conseguem se adaptar ou que perdem o apoio institucional, como se viu durante a pandemia de COVID-19. Durante a pandemia, ressalta ele, muitos artistas sofreram financeiramente e alguns abandonaram a música, embora o período também tenha dado espaço para reflexões pessoais sobre a identidade e a evolução artística de cada um.

Sobre carregar uma longa legado familiar, Bahauddin afirma que isso atua a seu favor, pois ele cresceu dentro dos valores (sanskar) da tradição desde o berço. No entanto, ele admite que tal legado impõe o dever de “trabalhar o dobro”, já que as expectativas sobre ele são elevadas: “Você precisa elevar seu padrão o tempo todo, senão seu tempo acabará” – ou seja, é preciso provar constantemente seu valor para estar à altura do nome da família Dagar. Ao mesmo tempo, Bahauddin defende que a própria tradição dhrupad possui em si mecanismos de renovação, se ensinada da forma correta: o método de transmitir frases-semente de raga aos alunos permite que “cada geração pertença às suas raízes e, ao mesmo tempo, se ramifique em novas expressões artísticas” sem quebrar o elo com a tradição. Esse equilíbrio entre conservação e criatividade é, para ele, a chave para manter a linhagem viva e relevante nos tempos modernos.

Em suas falas, transparece o perfil de um artista ao mesmo tempo tradicionalista e inovador, profundamente consciente da responsabilidade histórica de seu ofício. Bahauddin Dagar se revela um pensador da música, preocupado em articular os valores intemporais do dhrupad – disciplina, meditação, devoção – com os desafios do século XXI, como a globalização cultural, as novas tecnologias e as mudanças no gosto do público. Sua voz, em entrevistas e palestras, tornou-se uma das mais respeitadas quando se discute o futuro da música clássica indiana, justamente por unir a autoridade de quem herdou um tesouro ancestral à mente aberta de quem dialoga com o presente.

Contribuições para Preservação e Ensino do Dhrupad e da Rudra Veena

Além de sua atuação como concertista, Bahauddin Dagar vem desempenhando um papel crucial na preservação, ensino e difusão da arte do dhrupad e da Rudra Veena para as novas gerações. Consciente de ser um depositário vivo de uma tradição rara, ele assume esse legado não apenas nos palcos, mas também no ambiente pedagógico e acadêmico.

Uma de suas principais iniciativas é a condução do Dhrupad Gurukul de Palaspe, localizado nos arredores de Mumbai. Esse centro residencial de ensino musical foi o sonho de seu pai (que o idealizou nos anos 1980) e tornou-se realidade com esforços conjuntos de Zia Mohiuddin e Zia Fariduddin Dagar. Hoje, Bahauddin dá sequência a esse projeto, vivendo e ensinando no gurukul no espírito da tradicional relação guru-shishya parampara (mestre-discípulo). Ele ministra aulas tanto de música vocal dhrupad quanto de Rudra Veena para estudantes vindos de diferentes partes da Índia e do exterior, todos imersos em um regime de aprendizado intensivo e convívio diário com o guru. Para Bahauddin, ensinar não é apenas transmitir conhecimento, mas uma extensão natural de seu próprio aprendizado contínuo: ele afirma “acreditar firmemente que o ato de ensinar é parte integrante de seu próprio crescimento como músico”. Sob sua orientação, o gurukul de Palaspe tem formado uma nova geração de praticantes de dhrupad, garantindo a continuidade desta forma musical.

Adicionalmente, Bahauddin participa de workshops, seminários e residências artísticas em diversas instituições culturais. Ele frequentemente realiza oficinas de dhrupad patrocinadas por organizações como a SPIC-MACAY, levando a experiência do canto dhrupad e da Rudra Veena a jovens estudantes em universidades na Índia e no mundo. Em 2014, foi convidado a atuar como professor pesquisador visitante na Universidade de Goa (posição Nana Shirgaokar) durante três anos, onde contribuiu para um programa acadêmico de música e intercâmbio cultural. Seu envolvimento no ambiente universitário demonstra a ponte que ele constrói entre a tradição oral e a educação formal, contextualizando o dhrupad para públicos acadêmicos e incorporando pesquisas históricas em sua pedagogia.

Bahauddin também colabora com musicólogos e projetos de documentação musical. Ele esteve envolvido, por exemplo, em iniciativas para arquivo de gravações de dhrupad e demonstrações técnicas de Rudra Veena para acervos nacionais. Em 2024, atuou como Artista Residente na Universidade de Harvard (Instituto Mittal de Estudos Sul-Asiáticos), passando um período em Cambridge, EUA, onde realizou concertos, workshops e palestras sobre dhrupad. Nessa residência, além de um recital solo no campus, ele ofereceu aulas em cursos como “Música em Contextos Islâmicos” e “Música do Sul da Ásia”, e conduziu uma oficina interativa explicando os fundamentos do estilo Dagarvani aos estudantes. Essa experiência ilustra a dedicação de Bahauddin em apresentar o dhrupad para audiências novas e diversificadas, traduzindo conceitos tradicionais para uma linguagem acessível sem diluir sua essência.

No âmbito da preservação, já mencionamos suas contribuições para revival de instrumentos (Ras Veena, sursingar) e sua pesquisa contínua em torno da organologia do dhrupad. Bahauddin é descrito por aqueles que o conhecem como um “pesquisador incansável” (indefatigable researcher) dentro de seu campo. Ele próprio relata histórias e conhecimentos transmitidos oralmente em sua família, ajudando a registrar essas narrativas para a posteridade. Por exemplo, ele compartilhou memórias de seu pai e antepassados em entrevistas e artigos acadêmicos, contribuindo para o entendimento histórico do gharana Dagar e das transformações do dhrupad nos séculos recentes.

Bahauddin Dagar também se preocupa com a divulgação ampla da música dhrupad. Além de seus lançamentos fonográficos, ele apoia ativamente esforços de democratização do acesso a essa arte, seja por meio de concertos didáticos, participações em documentários (como no filme “Raga Revelry” e em episódios sobre música indiana para a TV) ou colaborações com artistas de outras áreas, como vimos em sua parceria com a dança contemporânea. Em 2019, por exemplo, ele discursou em uma conferência sobre “Liberdade Artística e Tradição” em Nova Delhi, onde defendeu que manter a tradição viva implica permitir que ela dialogue com o presente, contanto que as fundações permaneçam sólidas – ecoando sua metáfora das “sementes e raízes” que dão margem a novos ramos sem arrancar a planta do solo.

Em suma, o papel de Bahauddin Dagar na preservação do dhrupad vai muito além do palco. Ele é um mentor, inovador e porta-voz de sua tradição. Seja ensinando jovens músicos no retiro de Palaspe, seja adaptando uma veena para torná-la mais fiel ao dhrupad, seja escrevendo prefácios para publicações musicais ou apresentando-se em fóruns internacionais, Bahauddin atua em múltiplas frentes para assegurar que a arte que herdou não apenas sobreviva, mas continue a florescer.

Participações Institucionais e Colaborações Culturais

Ao longo de sua carreira, Ustad Bahauddin Dagar associou-se a várias instituições e projetos culturais, exercendo papéis que vão desde professor convidado até curador artístico. Conforme mencionado, ele serviu como Professor Visitante na Universidade de Goa (2013–2015) através da cátedra Nana Shirgaokar, onde sua presença buscou fortalecer os estudos de música hindustani naquela instituição. Essa foi uma das primeiras vezes que um especialista em Rudra Veena atuou em um cargo acadêmico dessa natureza, marcando um reconhecimento institucional de sua expertise.

Em outubro de 2024, Bahauddin foi acolhido pelo Instituto Mittal de Harvard como Artista Distinto em Residência, integrando o programa de Artes da universidade. Durante essa residência, além de realizar concertos (como parte das “ArtsThursdays”, iniciativa artístico-cultural da universidade), ele colaborou academicamente, lecionando em disciplinas de Etnomusicologia e realizando workshops práticos. Essa colaboração com uma das principais universidades do mundo evidencia a ponte que Bahauddin constrói entre a tradição do dhrupad e os fóruns contemporâneos de conhecimento.

Bahauddin também mantém colaborações com instituições culturais na Índia. Ele frequentemente participa de eventos e curadorias da Sangeet Natak Akademi (a academia nacional), especialmente após ter se tornado laureado da instituição em 2013. Também atua junto ao Dhrupad Sansthan de Bhopal (centro fundado por outros membros da família Dagar) em atividades pedagógicas ocasionais. Ademais, Bahauddin contribuiu com a Raza Foundation em Nova Delhi – após receber o Prêmio Raza, ele participou de concertos e painéis organizados pela fundação, que promove diálogos entre as artes clássicas e contemporâneas.

No âmbito de divulgação e intercâmbio, Bahauddin colabora com organizações como a SPIC-MACAY, levando demonstrações de música clássica a escolas e universidades. Por meio dessa associação, ele já se apresentou em diversas instituições de ensino na Índia, Estados Unidos e Canadá, cumprindo um papel de embaixador cultural informal que inspira jovens estudantes a apreciar a herança musical indiana. Outro exemplo de colaboração foi sua participação em 2019 no festival “Gharana Music: Sarod & Rudra Veena” no Centro Indiano de Cultura em Londres, organizado pelo Indian Council for Cultural Relations (ICCR) – onde dividiu o palco com o sarodista Tejendra Narayan Majumdar, evidenciando apoio mútuo entre artistas e instituições para promover as várias tradições instrumentais.

Vale mencionar sua parceria com o falecido dançarino Astad Deboo em 2020, sob encomenda da Fundação G5A de Mumbai (centro de arte contemporânea). Nesse projeto interdisciplinar, a colaboração entre a dança moderna de Astad e a música ancestral de Bahauddin resultou em uma performance única comemorativa dos 50 anos de carreira do dançarino. Bahauddin descreveu a experiência não como “fusão”, mas como “confluência de ideias” – uma junção orgânica de movimento e som que respeitou as formas enquanto buscou renová-las.

Em esfera midiática, Bahauddin tem trabalhado com instituições de registro audiovisual. Ele colaborou com a Doordarshan (televisão estatal indiana) em programas dedicados à música clássica, e com a All India Radio onde, como artista de grau A, participa de transmissões nacionais – inclusive no prestigiado National Programme of Music, onde suas recitais de veena são periodicamente ao ar. Tais colaborações com veículos públicos ampliam o alcance de sua música para audiências que talvez não frequentem concertos, cumprindo um importante serviço de preservação via difusão.

Por fim, a própria família Dagar pode ser vista como uma instituição cultural na qual Bahauddin ocupa um lugar ativo. Ele colabora com seus primos e tios em eventos memoriais (como o Zia Mohiuddin Dagar Samaroh em homenagem a seu pai, ou o Dagar Sangeet Sammelan em Mumbai), bem como em projetos de ensino conjunto – por exemplo, workshops em que ele e outros Dagars ensinam canto e instrumentos a grupos de alunos. Essas iniciativas fortalecem a coesão do gharana Dagar e asseguram uma transmissão coletiva de conhecimentos.

Em resumo, Ustad Bahauddin Dagar tem estendido sua influência muito além de suas performances individuais, através de parcerias institucionais e culturais variadas. Seja na academia, em fundações artísticas, em órgãos governamentais de cultura ou em organizações educacionais, sua presença tem contribuído para elevar o perfil do dhrupad e da Rudra Veena no cenário global, ao mesmo tempo em que reforça, em diferentes contextos, o valor dessas tradições. Sua atuação multifacetada demonstra um compromisso exemplar em entrelaçar a preservação do passado com o engajamento no presente, garantindo que a voz ancestral da Rudra Veena continue ressoando forte no futuro.

Sources:
  1. Blank Forms – Perfil do evento de Bahauddin Dagar (2023).
  2. Darbar – Artigo “Ustad Bahauddin Dagar”.
  3. Wikipedia (en) – Página “Bahauddin Dagar”.
  4. Meetkalakar – Biografia de Mohi Bahauddin Dagar.
  5. The Daily Pioneer – Entrevista “Life as a musical project” (15/10/2021).
  6. Lakshmi Anand (Music & Moorings) – Entrevista detalhada com Bahauddin (2021).
  7. Bandcamp (Black Sweat Records) – Notas do álbum “Ahir Bhairav” (2022).
  8. Mittal Institute, Harvard – Q&A com Bahauddin Dagar (09/10/2024).
  9. G5A Foundation – Apresentação “Inter Connect: Astad Deboo x Bahauddin Dagar” (2020).








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